DOSSIÊ DE INCLUSÃO
Vou relatar um caso familiar, uma pessoa de minha família, que teve paralisia infantil, acho que aos 4 anos de idade. Vou chamá-lo de Renato.
O Renato já caminhava bem, quando teve a paralisia. Os pais e avós fizeram de tudo o que era possível, na época, 40 anos atrás, para tentar reverter o quadro. Foi feito algumas cirurgias na virilha, acima do calcanhar, foi colocado um aparelho do pé até a virilha. Deveria ficar um tempo com este aparelho, pois ele espichava as pernas, mas a dor era tanta, que os familiares descobriram que poderiam dobrar o aparelho na altura do joelho, depois desta descoberta foi quase impossível fazer o Renato ficar com o aparelho espichado. Então depois destas operações e deste aparelho, ele não ficou com as pernas retas, elas ficaram tortas. Tendo dificuldades para caminhar.
O Renato precisou usar muletas, para melhor locomover-se. Foi para a escola com uma idade um pouco mais avançada, um ano ou dois de diferença do normal.
Na escola sempre foi bem tratado por colegas e professores. Todos tinham prazer em ajudá-lo.
Na aprendizagem, sempre mostrou muitas dificuldades, no entendimento de textos, histórias matemáticas, cálculos mentais, mesmos os mais simples. Por isso rodou em algumas séries. Ficando para trás de seus irmãos.
Seu pai que não conseguiu superar este trauma de ter o primeiro filho homem com deficiência, não sabia como ajudar e atrapalhou muito no seu desenvolvimento. Não o levava para passear, não elogiava, apenas o criticava, fazia-o sentir medo e inferior aos outros.
Quando o pai dele buscava o boletim e este não tinha notas boas, o Renato apanhava. Então do pai ele tinha este tratamento de inferioridade. A mãe sempre o tratou com muito carinho, os irmãos sendo quase todos da mesma idade, tratavam ele com normalidade, brincando de contar histórias, ajudando-o em alguns temas, etc.
Os avós e tios, juntamente com a mãe, tinham muito carinho por ele, só que um pouco exagerado. Foram aquelas pessoas que fizeram tudo pelo Renato. Não deixaram ele crescer, decidir, fazer algo sozinho, sempre tinha alguém para ajudá-lo. Isto o fez ficar sem iniciativas, só fazia o que as pessoas decidiam por ele.
Ele não tem deficiência mental, apenas um problema nas pernas. Mas pelo excesso de ajuda de muitos parentes e amigos, talvez por pena, tentando amenizar o sofrimento, fizeram dele uma pessoa sem decisões próprias.
Ele estudou até a 8ª série e parou um tempo, depois foi fazer um supletivo e terminou o segundo grau. Mas o seu pai não o apoiava, dizia que era perda de tempo. Sua mãe e irmãos deram a ele toda a força.
Aos 15 anos foi trabalhar em fábrica de calçados. Logo, o colocaram em um serviço mais leve, mas teria que ter muita atenção, pois era para verificar entradas e saídas de materiais. Como ele tem dificuldades de concentração e organização, não deu certo. Hoje , já fazem 29 anos que trabalha nesta mesma fábrica de calçados, mas tem um serviço bem simples, um serviço que qualquer guri novato faz.
Logo que começou a trabalhar, ele ia de muletas, então a fábrica o ajudou a comprar um tricíclo.
Faz uns dois anos que com ajuda de cunhados e irmãos, ele conseguiu um carro adaptado para deficientes. Mas seu pai não o ajudou em nada. Não cedeu nem lugar na casa para colocar o novo automóvel. O Renato precisou pedir um espaço na casa da irmã, que era do lado.
Hoje ele está com 44 anos. Nunca teve uma namorada, não saía para ir em festas. Tinha alguns amigos que iam visitá-lo em casa.
Encontrou algumas pessoas da igreja Quadrangular, que disseram que lá ele teria a cura. Fizeram largar as muletas. Mesmo precisando delas, ele largou, há mais ou menos uns 20 anos atrás.
Era o único lugar que ia quando saía de casa, para a igreja.
Ele sempre morou com seus pais e sua mãe sempre fazia de tudo. Hoje ele mora com sua irmã mais velha, a qual está tentando ensiná-lo algumas coisas básicas de casa. Como varrer, fazer comida, limpar a mesa, lavar uma louça, cuidar para deixar tudo organizado, ela disse que é bastante difícil, muitas vezes é vista como uma pessoa muito ruim para ele.
Ele quer se aposentar e está começando a pensar em namoros, mas como é muito tímido, acho que vai ser muito complicado, pois nisso ninguém pode ajudá-lo.
Vamos ver!!!




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Comments (2)
liliana said
at 8:37 pm on Apr 23, 2009
Silvia
teu relato do caso da familia é interessante, e mostra como era difícil a vida de pessoas com algum tipo de deficiência antes, que os recluia a uma vida diminuída sem plenitude, e não estou me referindo só à questão escolar, mas também aos aspectos que fazem uma pessoa se sentir completa: ter familia, amigos, seu lar, seu espaço e se sentir digna. Sobre a segunda unidade, nenhum dos casos que comentas são na tua sala de aula? Poderias apresentar mais dados sobre esses "casos de inclusão" Que tipo de necessidades? (nao me refiro a um diagnóstico mas sim aos problemas evidenciados) e que estrategias esta professora que oferece o serviço de reforço faz? há algum tipo de planejamento conjunto entre essa professora e as de sala de aula? como acontece isso? e a avaliação como acontece?
abraços
liliana
Maria del Carmen Cabrera Martins said
at 3:11 pm on May 20, 2009
Olá , Silvia muito bem detalhada a tua descrição, que tipo de atendimento a porfessora realiza com esta aluna?, pela tua descrição ela tem problemas em trabalhar em grupo, desenvolvem alguma atividade para melhorar esta atitude?.
Abraços
Maria del Carmen
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